sábado, 12 de novembro de 2011

Fazes-me Falta - Inês Pedrosa

"Sabia também como acabar com a tristeza ou solidão de qualquer dos meus amigos. (…) Às vezes magoava-me ligeiramente ouvir, às seis da manhã, depois de uma noite inteira a requentar corações:

– Tu não és capaz de viver sozinha

num tom insidiosamente paternalista. Eu a aguentar o sorriso com uma grua imaginária, pensando nos meus livros, nos testes para corrigir, no estado em que chegaria à reunião da manhã seguinte, e afinal, aquele coração maltratado estava ali a fazer-me um favor. A beber o meu whisky, o meu sono, a parte mais generosa do meu coração, e afinal só porque eu não era capaz de viver sozinha.

É verdade que não sou capaz de morrer sozinha. Ninguém é. Mas morre-se melhor quando não ouvimos a morte a bater à porta, quando ela nos irrompe pela casa como uma visita inesperada.

Sempre gostei de visitas inesperadas – nisso éramos completamente diferentes. Sonhei a vida inteira com uma festa-surpresa que nunca me fizeram – a páginas tantas, tu e todos os outros começaram a dizer-me que já não era possível fazerem-me a tal festa, porque eu vivia em ansiedade à espera dela. «Já não seria surpresa, percebes?». Não, nunca percebi. O Natal não deixava de ser uma surpresa só porque eu já sabia que ele ia chegar. Vivia a sonhar com esse dia em que um de vocês me atrairia a um restaurante à beira-mar onde estariam todos os meus amigos e amores, rodeados de rosas brancas e balões coloridos, com um piano e a guitarra do Pascoal, para me receberem em apoteose ao som de A Sombra das Nuvens no Mar.

(...) Tive a minha festa-surpresa, sim – apareceram-me todos, carregados de flores, ao lado do caixão. Mas só tu cantas encostado ao gelo da minha boca azul."

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